Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos; pois que sociedade tem a justiça com a injustiça? ou que comunhão tem a luz com as trevas? Que harmonia há entre Cristo e Belial? ou que parte tem o crente com o incrédulo? E que consenso tem o santuário de Deus com ídolos?
2Co 6.14-16a
IntroduçãoNuma leitura mais superficial, somos levados a entender que os conselhos paulinos aqui se tratam de casamentos misto e sociedade civil entre um crente e um não crente. Até certo ponto é legítimo usamos como base para encorajar um crente solteiro a não se casar com um não convertido. Do mesmo modo, uma sociedade comercial, ou qualquer coisa que o valha, não deve ser feita com alguém que ainda não professa a fé genuína.
Todavia, parece, que ao subsumirmos esta porção à carta como um todo, Paulo está falando de comunhão de crentes com pseudocrentes, ou líderes falsos. Veremos que os conselhos do apóstolo, sob a inspiração divina do Espírito Santo, exortam a Igreja a identificar os falsos líderes, ou falsos irmãos, que praticam justamente o contrário do que a Bíblia diz, e se separar deles.
Analogia do jugo (canga)
Em Levítico e Deuteronômio o Senhor Deus manda que não se colocassem animais distintos sob o mesmo jugo. Aqui há dois aspectos do mandamento: a proteção e o cuidado com o os animais e também uma metáfora para não se misturar o santo com o profano.
Os israelitas vinham de 400 anos imersos em culto pagão egípcio. A força desta cultura estava impregnada na mente deles. Lembremo-nos de que quando Moisés se demora no monte, o povo pede a Arão que faça um ídolo. Arão confecciona um boi. Este boi não representaria outra divindade, mas a Yaveh. Não por acaso, pois Ápis era prefigurado na forma de um boi.
Percebe-se como a necessidade de uma santificação, ou separação, precisa ser profundamente produzida. Sendo assim, até mesmo em alguns detalhes da vida comum precisavam ser minuciosamente incentivados para que o povo fosse desintoxicado de toda idolatria.
Falando ainda desta purificação santificadora, o texto de Lv 19.19(ARA), que serve de inspiração a Paulo para dar a recomendação aos coríntios, diz: “Guardareis os meus estatutos. Não permitirás que se cruze o teu gado com o de espécie diversa; não semearás o teu campo com semente diversa; nem vestirás roupa tecida de materiais diversos”. Não semear, por exemplo, milho com feijão, cruzar cavalo com burro ou vestir roupas 10% algodão, 30% poliéster e 60% poliamida eram proibidos. Hoje não mais. Mas naqueles dias comunicava separação completa de tudo o que lembrasse práticas egípcias pagãs. (Se bem que Paulo vai citar diretamente o complemento que está Dt. 25.10(NVI): “Não arem a terra usando um boi e um jumento sob o mesmo jugo”.
Aliás, colocar dois animais diferentes no mesmo jugo, do ponto de vista técnico, é a pior coisa que se poderia fazer. Pense num boi, preso por uma tábua ao pescoço, junto com um cavalo, ou mula! São animais de força diferente, altura diferente, compasso diferente. Se o objetivo de uso desta técnica era arar o campo, seria o mesmo que hoje colocar rodas de carro de passei no trator de arado. Simplesmente não funciona e perde-se tudo: a plantação, os animais, o tempo, o recurso e o dinheiro.
Sociedade entre justiça e injustiça
Paulo inicia, assim, sua exortação com algumas perguntas retóricas. A primeira é perguntar que tipo de relação há entre justiça com injustiça. Óbvio! Nenhuma. Elas se antagonizam. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se alguém se diz líder cristão e não cumpre, por exemplo, Lc 12:15: “E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza”; Mt 6.19 “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam”, ele de fato não é um crente, mas um descrente. Não que não creia que Jesus é o Senhor, ou que a Bíblia é a Palavra de Deus. Ele crê, mas não pratica, e assim se torna tal qual um ateu.
Aliás, ateu, segundo o Sl 14.1 é aquele que vive como se Deus não se importasse, ou como se ele não estivesse vendo e agindo no meio do seu povo. Talvez aqui seja o pior tipo de ateísmo.
Comunhão da luz com a trevas
Luz e trevas são o absoluto do antagonismo. A bem da verdade, segunda as leis da física, escuridão não existe em si. Escuridão só existe onde não tem luz. A luz é uma realidade ontológica; as trevas não.
Por isso, um crente que não anda na luz, está em trevas. E as trevas não herdarão os céus.
“E a mensagem que dele ouvimos e vos pregamos é esta: Deus é luz; nele não existe a mínima sombra de treva. Se afirmarmos que temos comunhão com Ele, mas caminharmos nas trevas, somos mentirosos e não praticamos a verdade. Se, no entanto, andarmos na luz, como Ele está na luz, temos plena comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado”; “Aquela pessoa que diz estar na luz, mas odeia a seu irmão, continua a vagar sob as trevas. Quem ama seu irmão permanece na luz, e nele não existe motivo de tropeço. No entanto, quem odeia seu irmão está nas trevas e vaga pela escuridão, não sabe para onde caminha, pois as trevas lhe turvaram a visão. (1Jo 1.5-7; 2.9-11 - KJA).
Harmonia entre Cristo e o Maligno
A ideia aqui é de sinfonia, como das orquestras. Quem já assistiu a uma vê o quanto é lindo dezenas de instrumentos no mesmo tom, na mesma harmonia. Quem tem ouvido absoluto, em música, percebe, em meio a todos eles, quando um desafina uma única nota sequer.
É esta a mensagem de Paulo. Cristo e Satanás são absolutamente opostos. E no mundo espiritual não existe coluna do meio, não existe tucanagem. Ou se é de Cristo, ou se é de Satanás. “O mundo jaz no Maligno” (1Jo 5.19).
Não é porque uma pessoa frequenta a Igreja, tenha até mesmo sido batizada. Sabe texto de cor, fala bem, prega, “faz” curas ou milagres, é pastor, bispo, apóstolo, paipóstolo, que ele é de Cristo. Você se lembra bem do texto Mt 7.23 (ARA) “Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”!
União de crente com incrédulo
Novamente aqui não devemos tão somente entender por incrédulo aquele que não fez a profissão de fé e foi batizado. Antes é sim aquele, tendo passado por tudo isto, pratica coisas contrárias ao que a Bíblia ordena. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14.21 – ARA).
Ligação entre santuário de Deus e os ídolos
Ligação remete tanto à ideia de depositar em um lugar comum as oferendas, quanto de concordância, aprovação. Para os crentes gentios, ir a um templo pagão onde houvessem muitas imagens com a finalidade de serem adoradas, era comum.
Uma vez que fomos resgatados desta idolatria, não podemos continuar a concordar com ela, fazendo como s primeiros israelitas que simplesmente trocaram o nome de Ápis para Yaveh ao adorarem a imagem.
É por isso que nós protestantes evitamos o uso de ícones como crucifixos, quadros, estátuas, etc. Para não correr o risco de ao invés de cultuar a Jesus, adoremos uma estátua, a criatura em lugar do Criador.
No entanto, há muitos que têm ídolos virtuais. Objetos como sabonete, chave, água, óleo, toalha, etc. Todos ungidos, com a finalidade de conferir bênção ao fiel.
Também nos remete ao cuidado de não absorvermos cultos pagão, simplesmente trocando os nomes das “entidades”, como ocorreu no sincretismo católico-africano.
Neste ponto, há uma dificuldade em separar o elemento cultural do elemento de prestação de culto. No passado, certos instrumentos musicais utilizados no candomblé, nos cabarés, ou outros, não eram permitidos nos templos cristãos. Não é fácil para a geração da transição separar o que é o que, mas com equilíbrio, amor e dedicação somos capazes de fazer tal separação.
Conclusão
Como visto, até mesmo do ponto de vista técnico, misturar animais no mesmo jugo, no mínimo, gera prejuízo material. O crente verdadeiro que insiste muito em permanecer em comunhão com aqueles que se dizem cristãos podem sofrer terríveis consequência, tanto na vida social quanto na espiritual. Aqueles praticam as obras das trevas, devem ser ou excluídos da comunidade, ou se separam deles, procurando reunir-se apenas com os que verdadeiramente estão atentos ao aperfeiçoamento de suas santificações pessoais.


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