1. Base bíblica e histórica do diaconato
O termo diácono (diákonos) significa “servo”, e sua aplicação no NT varia desde o serviço prático até o ministério espiritual. O primeiro quadro organizado de diaconia aparece em Atos 6, quando surgiu a necessidade de cuidar da distribuição de alimentos às viúvas. Para que os apóstolos não negligenciassem o ensino da Palavra, eles delegaram essa função a sete homens cheios do Espírito Santo.
Princípios observados nesse artigo:
- a diaconia surge da necessidade
- a função é delegada para proteger o ministério da Palavra
- há distinção clara entre serviço prático e serviço espiritual
Em Filipenses 1.1, Paulo menciona “bispos e diáconos”, mostrando que desde cedo a igreja reconhecia dois tipos de liderança: os responsáveis pelo ensino e supervisão espiritual; e os responsáveis pela assistência e organização.
Historicamente, existem paralelos entre o diaconato cristão e funções administrativas das sinagogas, como os panasim, chazan e chamash, reforçando a natureza de serviço do diácono.
2. Presbitério e diaconato: funções distintas
Nas igrejas batistas, presbítero, bispo e pastor são considerados termos equivalentes, indicando o líder espiritual responsável pelo ensino e pastoreio. Esse é um ofício espiritual permanente.
O diaconato, porém, é:
- uma função, não um ofício espiritual
- temporário, conforme a necessidade
- voltado ao serviço prático, para que o ensino da Palavra não seja prejudicado
Exemplos neotestamentários mostram que o diaconato não define o ministério final da pessoa. Filipe e Estêvão foram eleitos para uma diaconia prática, mas logo exerceram ministérios espirituais distintos.
3. Duas categorias de diaconia
Em Atos 6.1-6 lemos: “Naqueles dias, crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição (διακονια) diária de alimento. Por isso os Doze reuniram todos os discípulos e disseram: ‘Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir (διακονειν) às mesas. Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa e nos dedicaremos à oração e ao ministério (διακονειν) da palavra’. Tal proposta agradou a todos. Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, além de Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau, um convertido ao judaísmo, proveniente de Antioquia. Apresentaram esses homens aos apóstolos, os quais oraram e lhes impuseram as mãos”.
A partir da análise bíblica e prática da igreja primitiva, observa-se que existe mais de um tipo de serviço diaconal:
A. Diaconia das Mesas
- Serviço prático e administrativo
- Focado em organização, assistência social, logística e estrutura
- Não envolve ensino com autoridade
- Pode ser exercida por homens e mulheres
- É temporária, conforme a necessidade
- Equivale às áreas de suporte da igreja (tesouraria, secretaria, recepção, manutenção etc.)
B. Diaconia da Palavra
- Serviço espiritual
- Envolve ensino, supervisão, cuidado pastoral e tomada de decisões espirituais
- Exclusiva de homens, por envolver autoridade pastoral
- Esses diáconos exercem funções de presbíteros, apesar de não receberem esse título na prática batista[1]
4. O governo plural da igreja — a proposta para o contexto Batista
O Novo Testamento mostra que a igreja local era dirigida por um grupo plural de presbíteros. Não há registro de liderança espiritual exercida por um único homem. Todas as saudações epistolares a igrejas foram direcionadas aos presbíteros, no plural. Nunca ao presbítero, no singular. A evidência neotestamentária é que em todas as igrejas local a liderança era plural.
Entretanto, na prática batista contemporânea, cerca de 90% das igrejas funcionam com governo de um único líder, o pastor, o que não reflete o padrão bíblico de pluralidade espiritual.
Minha proposta é recuperar esse princípio plural, porém sem abandonar a estrutura batista tradicional, que reconhece apenas dois títulos oficiais: pastor e diácono.
A solução biblicamente coerente e culturalmente viável é:
a) Reconhecer dois tipos de diáconos
- Diaconia das mesas – serviços de natureza administrativos, práticos, temporários, podendo incluir mulheres. Aqui temo a nomeação de diáconos e diaconisas
- Diaconia da palavra – líderes espirituais, exclusivamente homens, exercendo funções de ensino e pregação da Palavra.
b) Considerar os diáconos da palavra como líderes espirituais
Mesmo mantendo o título “diácono”, estes homens exerceriam funções que, biblicamente, pertencem ao presbitério. O exercício de aconselhamento, disciplina corretiva e preventiva. Na prática, exercendo a coliderança espiritual junto com o pastor, formando com ele um colegiado. Ou, para ficar com o termo bíblico, o presbitério.
- ensino
- supervisão espiritual
- aconselhamento
- correção
- cuidado pastoral
- apoio direto ao pastor titular
c) Reestabelecer a liderança plural dentro da estrutura batista
Sem necessidade de criar novos cargos ou alterar o nome “pastor”, a igreja passa a ter:
- o pastor principal, líder espiritual em tempo integral
- os diáconos da palavra, atuando como presbíteros
- os diáconos das mesas, atuando no serviço administrativo
Dessa forma, a Igreja Batista mantém sua identidade eclesiástica, mas se alinha mais fielmente ao modelo bíblico e ao funcionamento saudável das igrejas do primeiro século.
5. Mulheres e o diaconato
A Bíblia não apresenta mulheres exercendo presbitério, mas apresenta mulheres exercendo diaconia prática. Exemplo: Febe (Rm 16.1).
Assim:
- Mulheres podem exercer a diaconia das mesas
- Mulheres não podem exercer a diaconia da palavra, que envolve autoridade espiritual
6. Síntese final
- O diaconato é uma função, não um ofício de governo espiritual.
-
Existem duas categorias fundamentais:
- diaconia das mesas (administrativa, prática, inclui mulheres)
- diaconia da palavra (espiritual, exclusiva de homens, equivalente ao presbitério)
- A igreja batista pode recuperar o modelo bíblico de liderança plural ao:
- distinguir claramente essas duas categorias,
- reconhecer diáconos da palavra como líderes espirituais,
- preservar sua própria tradição denominacional.
Isso produz um governo mais bíblico, mais saudável e mais fiel ao exemplo apostólico.
REFERÊNCIAS
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[1] Corresponde, em essência, ao modelo presbiteriano de: presbíteros regentes (governo espiritual); presbíteros docentes (ensino e doutrina)
Imagem: Por Fra Angelico - Web Gallery of Art: Imagem Informações sobre a obra de arte, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7281995

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