![]() |
| Fig1 |
O capítulo 9 de João nos fala da cura de um cego de nascença. Para mim, ele ainda é sequência do anterior, ou seja, Jesus está em Jerusalém por ocasião da festa dos tabernáculos. Ele descrever como Jesus cumpre o seu ministério anunciado pelos profetas. Em Is 42.6-7 se diz que o Messias iria ser aquele que daria vistas aos cegos, tiraria as amarras e abriria as portas das prisões. No sentido denotativo, fala-se de cura física e libertação da escravidão. No sentido conotativo, pensamos em conhecimento da verdadeira palavra de Deus (Lei), livramento das algemas do pecado e libertação das grades da morte. Se Jesus é o Messias, ele deveria demonstrar o poder de realizar estas coisas.
Sofrimento físico, em especial a cegueira era tido como sinal evidente de pecado. Para todos os judeus daquele tempo, um cego estava debaixo de terrível pecado, ou dele próprio, ou de seus pais. Por isso os discípulos questionam sobre aquele em especial. Esta pergunta vai desencadear todo um acontecimento que levará mais uma vez a debates com a liderança judaica.
Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram: "Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego? " Disse Jesus: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele. Enquanto é dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo". Tendo dito isso, ele cuspiu no chão, misturou terra com saliva e aplicou-a aos olhos do homem. Então lhe disse: "Vá lavar-se no tanque de Siloé" ( que significa Enviado ). O homem foi, lavou-se e voltou vendo (João 9.1-7 - NVI).
Parece que desde antes da fundação do mundo Deus planejou que aquele cego estivesse naquele dia e hora naquele exato lugar. O texto nos diz que Jesus viu o homem. De algum modo, ele chamou a atenção dos discípulo para o cego, o que os levou a perguntar sobre quem havia pecado. O fato de questionarem se o cego ou seus pais pode ser porque se lembraram de Nm 14.18. Entretanto, a resposta de Jesus nos dá a certeza de que este momento não foi mera coincidência.
"Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus" (o destaque é meu).
Nota-se que em alguns casos (para não dizer todos), Jesus usou como ilustração uma cura física real para apontar a sua capacidade de realizar sua obra no plano espiritual.
Vemos Jesus curando um paralítico como ilustração de sua capacidade de perdoar pecados (Mt 9.2). Jesus ressuscita Lázaro para demonstrar seu poder sobre a morte. Jesus curou o cego para demonstrar sua capacidade de curar a cegueira espiritual.
Em certo sentido, tudo o que acontece neste mundo físico (fenomenológico) é apenas um espelho, ou uma imagem do que há no mundo espiritual. Em certo sentido, nós vivemos num mundo virtual, e o real, nós só podemos alcançar com a nossa mente. Por isso, devemos moldar a nossa mente conforme a Palavra de Deus, para conhecermos a boa, perfeita e agradável vontade de Nosso Senhor (conf. Rm 12.1-2).
Por que Jesus curou o cego? - crença de cegueira (sofrimento) como consequência exclusiva pecado.
No sentido conotativo, a cegueira aponta para a nossa incapacidade de ver (conhecer) Deus. Somos espiritualmente cegos. Somente Jesus é capaz de abrir os nossos olhos para enxergamos a verdade. Somos cegos quanto a nós próprios, pois não reconhecemos nossos pecados, a menos que Jesus nos cure. Ao curar fisicamente o cego, Jesus estava demonstrando que ele tem poder para curar também a cegueira da alma.
Por que usou saliva e barro?
Não há nenhuma explicação clara do motivo de Jesus ter usado este método. Havia nas tradições judaicas proibições expressas que poderiam ser tidas como trabalho o ato de Jesus misturar saliva com barro no dia de sábado. "Segundo o Talmude (Mishná Shabat 7,2), são 39 as atividades que são proibidas de se fazer durante todo o Shabat"[1], sendo a 10º, preparar massa (fazer misturas).
Por que o tanque de Siloé?
As águas deste tanque simbolizavam para o povo as bênção que fluíam de Deus. Seu nome significa Enviado. Consideremos também que há não muito tempo, Jesus curou o paralítico junto ao tanque de Betesda, que o povo considerava ter águas com poder curador. Assim, Jesus pode ter-se valido da ocasião para comunicar:
- As verdadeiras bênçãos são aquelas que recebemos do enviado do Pai, o próprio Jesus.
- O poder de cura não estava nas águas em si, mas na ação do Deus verdadeiro. Não foram as águas de Betesda que curaram, como não são as águas de Siloé.
- O cego precisou obedecer as palavras de Jesus para alcançar a cura. Não foi isto que ele tinha dito pouco antes, no capítulo 8, sobre ouvir e obedecer as palavras dele?
Aplicações
1- Nossos sofrimentos podem ter sido predeterminado por Deus para que a glória dele venha a ser manifestada. Quantos anos aquele homem sofreu? Enquanto se passavam os dias, os meses, os anos, ele não conseguia encontrar razão para a sua dor. No entanto, no dia em que fora curado, forma não só os olhos do corpo, mas também os olhos espirituais. É o primeiro home a adorar Jesus com o Deus. Então o homem disse: "Senhor, eu creio". E o adorou. (João 9:38).
2- Nada, absolutamente nada, está fora do conhecimento do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ele é onisciente e faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que o amam.
3- Foco no problema, foco na solução.
Esta frase é muito usada no meio empresarial. Os melhores líderes são aqueles que vêm em qualquer crise, uma oportunidade para cresce, melhorar ou aprimorar. Temos ali um cego - a crise. Os discípulos focaram no problema: descobrir quem pecou. Se eles chegassem a uma resposta satisfatória, a crise não seria solucionada.
Jesus focou na solução. Não interessa saber quem pecou. Interessava saber que a crise era uma oportunidade para glorificar a Deus. E como Deus seria glorificado? Se o cego voltasse a ver. Então, vamos fazer o cego enxergar. No caso de Cristo, uma "simples" ordem. No caso humano, quem sabe um a cirurgia, um implante ou transplante, seria focar na solução.
Conclusão
É verdade que os pecados trazem graves consequências, uma delas as deficiências físicas. No entanto, nem todas enfermidade é consequência direta de um pecado pessoal. Casa caso é um caso.
Neste episódio, a deficiência daquele homem foi uma oportunidade para Deus manifestar todo o seu poder e misericórdia. A verdadeira e perpétua enfermidade humana é o pecado e a morte. Somente Jesus tem o poder para livrar você deste destino. Se reconhecermos nossa deficiência espiritual, confessamos nossos pecados e confiarmos e obedecemos às palavras de Jesus, seremos eterna e perfeitamente curados para Deus.
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Atividades_proibidas_no_Shabat
Figura 1 - Jesus curando o cego perto de Jericó. Séc. XVII. Por Eustache Le Sueur, atualmente na Galeria Sanssouci, em Potsdam, na Alemanha. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jesus_curando_o_cego_perto_de_Jeric%C3%B3)
Questões Teológicas
Tudo bem, que o sofrimento é causa do pecado. Mas se o homem era cego de nascença, seria justo ele sofrer? Que pecado teria ele cometido? Seria justo ele pagar pelo pecado dos pais?


0 Comentários
Não use palavras ofensivas.