"Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove?" - Lc 17.17
Alcebíades caminhava de volta para a sua casa, passando perto de uma rua deserta, pensou ter ouvido um fraquinho choro de bebê. Por alguns instantes ele parou e se concentrou a fim de ver se era pegadinha de sua mente ou se o choro era real.
− Sim, é choro de um bebê! Mas de onde será? − Perguntou para si mesmo, atônito. Naquela rua deserta não haviam casas muito menos alguma senhora com um bebê. Concentrando-se mais ainda começou a caminhar em direção a origem do som, e enquanto caminhava, o choro ficava mais alto, o que lhe norteava o caminho.
Quando deu certeza de onde vinha, quase caiu de susto. O lamento vinha de uma lata de lixo. Instintiva e afobadamente ele começou a retirar o que havia dentro daquele latão até que se deparou com uma pequena criança, envolta em um fino cobertor. Era um lindo menino, com talvez apenas algumas horas de nascimento.
O homem, ao ver aquele menino, apiedou-se e apaixonou-se profundamente. Ele que não tinha filhos sentiu como sendo um enviado dos céus. Olhou para todos os lados e como não havia viva alma a testemunhar o fato, e por certo a mãe, a única que saberia da verdade queria mesmo era se livrar, quiçá, matar o menino, resolveu que o criaria como sendo seu.
Passaram-se os anos e o menino tornou-se um homem. Seu pai nunca lhe escondeu a verdade, o que contribuiu para que aquele jovem rapaz tivesse provas do profundo amor com que fora amado. O pai lhe deu tudo o que podia e o rapaz se formou doutor.
Anos mais tarde o pai, que a esta altura da vida morava só, começou a adoecer lentamente. “Ah, mas meu filho cuidará de mim” pensava ele. O filho, inicialmente visitava seu pai duas vezes por semana. Entretanto as visitas começaram a se tornar mais espaçadas. O que eram duas vezes na semana se tornara uma só. Mas o pai não reclamava nem cobrava nada.
A saúde piorou. O pai pensou que agora o filho o levaria para morar consigo. O doutor já havia conseguido muito respeito como médico e acumulava certa riqueza. “Quem sabe um dos oito quartos de sua casa, que são ocupados apenas por amigos que o visitam raramente” mais uma vez esperançou o agora velho senhor.
Mas... Nem isto o filho fora capaz de fazer. “O asilo é melhor papai. La você terá pessoas de sua idade, será cuidado por médicos e enfermeiros 24 horas por dia” arrazoou o filho. O pai, sem dizer uma palavra, pois não valeria a pena, apenas olhou firmemente nos olhos do filho e tentou transmitir, pelo olhar, que “lá não terei como expressar meu amor por você”.
Nos primeiros meses o filho ia visitar o pai todo fim de semana. Depois duas vezes ao mês. Uma vez ao mês. Por fim, somente no dia dos pais e no natal. Até que o fatídico telefonema chegou: “Seu pai faleceu!”
Aquele que foi livrado da lata do lixo, agora lançava em uma, o seu ajudador.

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