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O Profeta Habacuque e o problema do mal

De acordo com um dos mais importantes teólogos da Igreja, o bispo Agostinho de Hipona, (354-430 d.C.), temos o mal metafísico, o mal moral e o mal físico. O mal metafísico é apenas uma percepção que temos de mal. Ele não existe enquanto ser, enquanto substância. Tão somente é uma forma de graus inferiores quando comprados a Deus, que é o bem absoluto.



O mal moral é o pecado. É a transgressão da lei moral de Deus, ou da vontade expressamente revelada por Deus. Seja a Lei geral e universal, como os 10 mandamentos, por exemplo, seja uma vontade específica do Senhor para uma pessoa específica. “Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei” – 1Jo 3.4.

Somente seres livres, como nós humanos, podem pecar. Os animais não pecam, ainda que façam coisas que percebemos como sendo mal. Um animal que mata o outro pratica um mal aos nossos olhos (mal metafísico) mas o animal não tem livre agência para escolher matar ou não matar. Ele simplesmente faz isso. Já os humanos não! Se matamos, o fazemos porque escolhemos quebrar o sexto mandamento.

O mal físico, ainda segundo Agostinho, é uma consequência do mal moral. O mal físico é tudo aquilo que nos traz dor e sofrimento (ainda que este sofrimento seja na alma e não no corpo).

Até aqui, tudo bem. Mas existe um problema: como um Deus perfeitamente bom pode permitir dor e sofrimento àqueles que são justos? Pior, como um Deus perfeitamente bom e todo poderoso pode trazer dor e sofrimento ao seu povo? Diz Isaías 45.7 - “Eu formo a luz e crio as trevas, promovo a paz e causo a desgraça; eu, o Senhor, faço todas essas coisas”.

O livro de Habacuque vai tratar do problema do mal físico. O profeta olhando a realidade à sua volta, percebe o quanto seus compatriotas judeus se desviaram da santidade moral. Adultério, injustiça, idolatria, corrupção... Ele então pede a Deus que faça justiça e que promova um reavivamento (Hc 1.1-4).

Habacuque viveu nos dias de Josias. Josias era filho do terrível Manassés que “fez o que o Senhor reprova, imitando as práticas detestáveis das nações que o Senhor havia expulsado de diante dos israelitas. Reconstruiu os altares idólatras que seu pai Ezequias havia demolido; também ergueu altares para os baalins e fez postes sagrados. Inclinou-se diante de todos os exércitos celestes e lhes prestou culto. Construiu altares no templo do Senhor, do qual o Senhor tinha dito: "Meu nome permanecerá para sempre em Jerusalém". Nos dois pátios do templo do Senhor ele construiu altares para todos os exércitos celestes. Chegou a queimar seus filhos em sacrifício, no vale de Ben-Hinom; praticou feitiçaria, adivinhação e magia, e consultou médiuns e espíritas. Fez o que o Senhor reprova, provocando-o à ira” – 2Cr 33.2-6.

Josias escapou de ser queimado em sacrifício. Com 8 anos tronou-se rei. Ao achar o Livro da Lei do Senhor, humilhou-se e promoveu um avivamento na nação. Provavelmente era isto que Habacuque esperava, mas os sucessores de Josias fizeram o que era mal aos olhos do Senhor. Por isso o profeta ora a Deus por um avivamento. Na sua teologia, ele imaginava Deus como sendo um Deus de justiça retributiva, apenas. Ele tinha Deus em uma caixa teológica e quando ouve do Senhor que uma nação moralmente pior que Judá, que adorava um deus-demônio, Moloque, seria usada para trazer dor e sofrimento, o profeta entra em crise (Hc 1.12—2.1).

Habacuque, cujo nome significa abraço e que nada mais se sabe a seu respeito, tenta ensinar Deus como deve agir. Quando, em sua primeira reposta ao profeta, Javé diz que irá trazer os caldeus para punir Judá (Hc 1.5-11), ele argumenta que seria um erro Deus fazer tal coisa. Habacuque se oferece como um intercessor e se compromete a orar até que o Senhor percebesse o erro que seria se tal se sucedesse.

Javé não se comove com a, talvez sincera, mas equivocada teologia do profeta e escandaliza-o ainda mais com detalhes estarrecedores. Deus revela ao profeta que os caldeus não ficarão sem juízo. Babilônia será varrida do mapa, mas cumprirá o propósito do Senhor e será a vara de disciplina para castigar o Judá rebelde (Hc 2.2-17).

Mas ainda assim há uma palavra de esperança: “mas o justo viverá pela sua fé” (v. 4). Esta frase é usada por Paulo para falar sobre a justificação pela fé somente. Somos salvos da separação eterna de Deus pela fé e não por obras.

Porém, aqui em Habacuque Deus está apresentando uma válvula de escape. Deus promete que não irá varrer Judá da face da terra. A sentença contra os judeus é dura, mas ao contrário do que aconteceria com os algozes, Judá será preservado. Serão salvos não por praticarem as obras da Lei, o que ninguém conseguiu e isto ficou provado. Mas aquele que exercer confiança na fidelidade do Senhor será preservado.

O capítulo três é um salmo de Habacuque onde ele prova que está exercendo esta fé. Até o verso 16 é relatado a destruição vindoura. Mas os 3 versículos finais mostram a confiança do profeta na misericórdia do Senhor e na esperança de que Ele restauraria o seu povo eleito.

O que concluímos da profecia de Habacuque? Primeiro: Deus não é autor do mal moral. Deus não peca, não tenta e nem pode ser tentado pelo mal (conf. Tg 1.13). Segundo, em última instância, todo o mal que sofremos são consequências do pecado. Há consequências diretas e indiretas. Se sofremos porque pecamos nossa atitude deve ser a de arrependimento, confissão e clamor por misericórdia. Davi é um excelente exemplo neste sentido. A Bíblia relata pecados graves e que tiveram consequências trágicas. Mas ao se arrepender, Deus suspende o mal que lhe trazia sofrimento. Veja o caso detalhado de 1 Crônicas 21.

Há ainda um terceiro sofrimento, quando se dá por causa do Evangelho. É quando somos perseguidos unicamente pela fé que exercemos e praticamos. Mas a questão é: Deus não é todo poderoso que não pode nos livrar de sofrimentos ou não é absolutamente amoroso e bom? Como lidar, como compatibilizar estas coisas?

A primeira coisa é, como Habacuque, questionar com humildade a Deus a razão do sofrimento. Se identificamos que foi um pecado direto, humilhação e arrependimento são o caminho mais curto para o livramento das dores. Se não identificamos pecados morais talvez seja o caso de analisarmos as seguintes possibilidades:

O labo bom do sofrimento – ao invés de abordar de onde se origina o mal, descobrir quais os benefícios que este sofrimento pode me proporcionar.

a) O sofrimento traz maturidade, aprendizado, crescimento. Desenvolve a coragem e a criatividade. Sl 18; 42; 63; 126

b) O sofrimento aprimora nosso caráter e dá-nos contentamento com as poucas e simples coisas.
Os sofrimentos nos fazem dependentes de Deus - Fp 4.11 “Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece”. (Ver ainda Is 48:10; Zc 13.8,9: Tiago 1.2-4.

c) A nossa dor e sofrimento passados podem servir de exemplo e encorajamento para outros que estejam em circunstâncias análogas. 2 Co 1.3-5.

d) “Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” – Rm 8.18. A vida transcende a morte. Os sofrimentos nos lembram que um dia eles serão cessados.

e) Identificação com Cristo – os sofrimentos nos identificam com Cristo. Se ele sofreu, nos identificamos com ele em nossas tribulações. Jo 16.33 “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”.
Fp 3.8-11 "Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé. Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos".

f) Nossas dificuldades podem servir de teste de fidelidade. Não para Deus, que conhece o nosso íntimo, mas a nós mesmos. Abraão foi provado por Deus ao testar sua confiança ao pedir que oferecesse Isaque em sacrifício (Gn 22.1-14).

g) Dificuldades na vida nos levam a confiar mais em Deus; humilha-nos mostrando que não somos autossuficientes. Hc 3.17-19.

h) Nossos sofrimentos podem servir de inspiração para outras pessoas.







A citações bíblicas são da NVI

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