A questão de governos de Igreja não é matéria de consenso nas denominações cristãs. Basicamente, podemos agrupar em três tipos básicos diferentes: episcopal, federativo e congregacional. Certamente a Bíblia não ordena um modelo específico, mas um exame minucioso nos mostra um padrão em se tratando de igreja local. Duas características são comuns a todas as igrejas cristãs sérias: liderança é colegiada e inexistência de sucessão apostólica.
Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram (Atos 13.1-3).
1- A Bíblia como única fonte de autoridade.
Nos primeiros anos da Igreja não havia texto neotestamentário canônico completo e circulando facilmente. Ainda dependiam da palavra dos Apóstolos, por isso, a Igreja de Jerusalém exercia certa autoridade sobre as demais uma vez que os Doze estavam ali sediados.
Com o ministério itinerante de Paulo e seus amigos, e com o surgimento dos primeiros escritos canônicos, a autoridade vai sendo dividida entre a pessoa dos Apóstolos e os textos. A partir do fechamento do Cânon e com a morte de João, o último dos Doze, a autoridade se encerra nos 66 livros da Escritura Sagrada – a Bíblia.
2- Quem são os Apóstolos?
O termo apóstolo foi dado por Jesus tão somente para diferenciar ou destacar os Doze dos demais discípulos (Mt 10.2-4; Mc 3.16-19; Lc 6.14-16). Ao chamar os Doze, de Apóstolos, Jesus não estava tornando este termo, apóstolo, um distintivo especial, uma espécie de diploma que conferia ao portador, poderes especiais. Judas Iscariotes foi designado apóstolo, mesmo sendo ladrão desde o início (Jo 6.70; 12.6). Em Atos 1 os Onze elegeram Matias para tomar o lugar de Judas. E em Atos 14.4,14 Barnabé e Paulo são designados Apóstolos.
Em resumo, Deus, o Pai, determinou que alguns homens receberiam poder e autoridade especial para plantarem a Igreja dele. Jesus, o Filho escolheu Onze. O Espírito escolheu 3 (Matias, Barnabé e Paulo). Estes e somente estes, receberam tal poder.
Uma vez que a Igreja foi plantada e o Novo Testamento escrito, a liderança pastoral foi distribuída a outros homens, que recebem o reconhecimento de seus antecessores, com base na Bíblia, para governarem e edificarem a Igreja, cujo alicerce foi de uma vez por todas, fundado.
Em resumo, ninguém mais tem poder e autoridade apostólica no mesmo sentido que os citados no livro de Atos do Apóstolos 1.13,26; 14.4,14.
Lendo o livro de Atos, vamos perceber que nos primeiros 10 ou 13 anos, apenas os Doze exerciam a liderança espiritual. A partir do ano 44, aproximadamente, começa a aparecer a figura de presbíteros em co-liderança com os Doze. No final de Atos, registra-se apenas a liderança de presbíteros na Igreja de Jerusalém.
3- Dois novos apóstolos aos gentios
Uma vez que novos Apóstolos não foram eleitos, reconhece-se que a Doutrina que os Doze ensinaram é o fundamento da Igreja, e que os líderes que vierem dali para frente, edificarão em cima do que foi ensinado pelos Doze.
E quanto a Igreja gentílica? Algo parecido precisa acontecer na Igreja dos gentios. É por isso que o Espírito Santo levanta dois Apóstolos, Barnabé e Paulo, para repetirem entre os gentios o que os Doze fizeram em Jerusalém.
Antes, em At 13.1, é dito que na Igreja de Antioquia havia profetas e mestre: Barnabé, Simão, Lúcio, Manaém e Paulo (Saulo). Por que Lucas não disse apóstolos ou presbíteros? Por que está claro que ainda não eram nem uma coisa nem outra. Entretanto, na sua primeira viagem missionária, um paralelo claríssimo é testemunhado entre Paulo/Barnabé e Pedro/João. Kistemaker enumera:
- Cura do coxo (3.1-10 e 14.8-10).
- Repreensão a um mágico ou feiticeiro (8.18-24 e 13.6-12).
- Na organização de igrejas (8.14-17 e 14.21-25).
Lucas, pela inspiração do Espírito Santo, designa a dupla Barnabé/Paulo como apóstolos (At 14.4,14). Estes dois não foram escolhidos pelos Doze, mas pelo próprio Deus Espírito Santo.
4- Presbíteros
Até Atos 11.1 vemos apenas a menção de Apóstolos como líderes na Igreja. Aqui estamos no ano 41 d.C. Em Atos 11.30, por volta do ano 43, aparece pela primeira vez a palavra presbíteros, referindo-se a líderes na Igreja.
De todos os Apóstolos, apenas de Pedro, João, Tiago temos informações além do capítulo 1 de Atos. Os outros nove simplesmente “desapareceram”. Tiago foi martirizado em 44 d.C. Se considerarmos que os Doze estavam em Jerusalém até esta data, é razoável aceitar que não fosse necessário a escolha de presbíteros para a Igreja em Jerusalém.
Contudo, a morte de Tiago e a prisão de Pedro fez os demais Apóstolos saírem. Segundo a tradição, foram até a Índia.
Apesar da dispersão dos Doze, a Igreja não elege apóstolos substitutos, mas sim presbíteros. É por isso que vamos ver o termo aparecer em At 11.30 pela primeira vez. Nos capítulos 15 e 16 são seis referências a apóstolos e presbíteros, com o sentido de liderança espiritual da Igreja, numa liderança conjunta.
A Igreja em Jerusalém já estava reconhecendo a figura dos presbíteros como líderes espirituais e que não podiam ser confundidos como Apóstolos nem como diáconos (que não seriam líderes espirituais, mas sim auxiliares).
Em Atos 14.23 os Apóstolos Barnabé e Paulo nomeiam presbíteros para liderarem espiritualmente cada uma das igrejas locais que foram plantadas. Em Atos 21.18 vemos Paulo encontrando-se com Tiago, que presidia o presbitério da Igreja em Jerusalém. Nenhuma menção é feita aos apóstolos, o que pode determinar que nenhum dos Doze estaria lá.
Por fim, Atos 20.17,28. Paulo está em Mileto, com destino a Roma. Ele pede para chamar os presbíteros da Igreja em Éfeso. O verso 28 diz: “Portanto, tende cuidado de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, que ele comprou com o próprio sangue” (Alm.XXI).
O Espírito Santo parou de constituir Apóstolos e agora constitui presbíteros. A função do presbítero é pastorear o rebanho.
Conclusão
De tudo o que podemos extrair das Escrituras quanto a liderança espiritual, podemos resumir:
a) Deus elegeu doze ou quatorze homens para serem o fundamento da Igreja.
b) O fato de serem identificado apóstolos não faz deste termo um ofício perpétuo para a Igreja.
c) A autoridade apostólica dada diretamente por Cristo e pelo Espírito Santo não foi sucedida ou transferida para outra pessoa.
d) Por orientação divina, os apóstolos elegeram presbíteros, cuja função é pastorear as igrejas locais.
e) Não existe um governo mundial de igreja na Bíblia. Todavia, localmente, as igrejas são governadas por um colegiado que a Escritura denominou de presbíteros.
f) Pastor é o nome que damos ao presbítero cuja tarefa é o cuidado das ovelhas de Cristo.
Por fim, não apenas Atos, mas toda a Escritura Sagrada não faculta o ofício pastoral para as mulheres. Em toda a Bíblia, somente homens foram designados para o exercício da liderança eclesiástica.
[1] KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento: Exposição de Atos dos Apóstolos – Vol. I. São Paulo: Cultura Cristã, 2003
Figura 1 - Paulo e Barnabé em Listra - http://www.4enoch.org/wiki4/index.php?title=File:Paul_Lystra_Berchem.jpg
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