Subscribe Us

Kant

1     Introdução

Desde o surgimento, na Grécia, cerca de 400 a.C. até a Idade Média (séc. VX), dominou o modo metafísico no pensamento filosófico: os objetos existiam independente de os conhecermos ou não. Em essências, estes objetos existiam ad aeternum ou teriam sido criados por Deus. O pensamento de Platão era o dominante até então, com o seu mundo das coisas perfeitas. A filosofia então se debruçava em conhecer a essência, os objetos em si.



Com o advento da Idade Moderna, inicia-se a ruptura com este pensamento. O pensamento filosófico muda de eixo. A partir de agora, passa-se a acreditar que todo conhecimento vem da razão natural. A metafísica é deixada de lado. Agora, a ciência domina o pensamento dos filósofos. Surgem o Racionalismo e o Naturalismo.

A Filosofia experimenta uma intensa modificação. A preocupação agora é com a epistemologia, ou, qual o processo pelo qual construímos o conhecimento. Como podemos dominar o processo que permite que o conhecimento é adquirido. Conhecer a natureza do homem e das coisas é deixado no limbo.

A partir daí, a comunidade filosófica vai se dividir em duas escolas: os racionalistas e o empiristas, cujos dois nomes mais marcantes serão Descartes e Locke, respectivamente.

“No contexto das teorias do conhecimento, racionalismo designa a doutrina que atribui exclusiva confiança à razão humana como instrumento capaz de conhecer a verdade” (CONTRIN e FERNADES, 2016, p. 194). Os empiristas, por sua vez afirmam que tudo o que se conhece advém das experiencias dos sentidos.

“Nossos conhecimentos começam com a experiência dos sentidos, isto é, com as sensações. Os objetos exteriores excitam nossos órgãos dos sentidos e vemos cores, sentimos sabores e odores, ouvimos sons, sentimos a diferença entre o áspero e o liso, o quente e o frio, etc.” (CHAUI, 2000, p. 88)

É aqui que entra a grande contribuição de Kant. Ele mesmo irá definir suas teorias como uma revolução copernicana. Ele alude ao que Copérnico fez para a astronomia, que mudou o pensamento reinante da época, que acreditava no geocentrismo para o que realmente é, o heliocentrismo.
Em resumo, Kant mostrou que até então os filósofos tinham o objeto como o centro e que os homens giravam em torno deste. Sua proposta foi inverter este pensamento, mostrando que os objetos é que devem girar em torno do homem.

Para isto, ele harmoniza o racionalismo com o empirismo ao dizer que adquirimos conhecimento a partir das experiências, todavia não sem antes estruturas inatas da razão. Está inaugurado o apriorismo.

Entretanto, Immanuel Kant é muito mais do que apenas o teórico do apriorismo. Sua filosofia alcança os temas da epistemologia, ética, política, filosofia da história, estética e a metafísica.
 

2    Biografia breve

Em 22 de abril de 1724, a Sra. Frau Anna Regina dá à luz seu quarto filho, cujo nome, o Sr. Johann Kant, o pai, irá chamar de Immanuel. Imanuel Kant, filho de uma pobre família pietista, que provavelmente emigrou da Escócia cerca de um século antes.

Kant não nasce num ambiente muito confortável. Além de a Prússia Oriental ainda estar se recuperando de guerra, Kõnigsberg, a cidade natal do filósofo, era mui pequena. Há quem diz teria não mais de 50 mil habitantes. E Kant deve ter mesmo amado a cidade, pois se diz que de lá ele jamais saiu. Talvez um dos fatores tenha sido a condição financeira. O pai, que trabalhava com couro, nunca tinha o suficiente para equilibrar o orçamento.

A mãe exerceu mais influência no filho do que o pai. Perdê-la aos 14 anos foi um duro golpe para o filósofo, a ponto de médicos dizerem que a razão pela qual ele nunca se casara teria a ver com este fato.

Superadas as dificuldades, Kant ingressa na faculdade, aos 18 anos, inicialmente para estudar Teologia. Mas logo perde o interesse e se dedica à matemática e física. Alias, muito de sua filosofia terá inspiração nos trabalhos de Isaac Newton.

Aos 22 anos ele perde o pai. Os irmãos se separam devido à pobreza. Kant abandona a faculdade, trabalha como professor e sempre enviou dinheiro para as irmãs. Mas, jamais teve qualquer relacionamento afetivo com elas.

Kant iria morrer em 12 de fevereiro de 1804, após alguns meses depois de um derrame. “Suas últimas palavras foram ‘Es istguf’ (está bom). Foi sepultado na catedral e seu túmulo continha a declaração que o fez inclinar-se para o Deus no qual com certeza acreditava”. (STRATHERN, 1997, p. 48).
 

3   Suas Obras

Kant foi uma pessoa que não tinha uma vida social ativa. Ele era muito metódico e nem mesmo com os irmãos se relacionava intima e socialmente, como já foi dito. Talvez a anedota mais famosa é a que dizem que alguns vizinhos acertavam os relógios pois ele era preciso em seus passeios diários: sempre no mesmíssimo horário.

Apesar de dizer não ter tempo para sequer trocar cartas com os irmãos, ele teve uma produção literária grandiosa. O talvez mais importante livro, KRITIK DER REINEN (Crítica da Razão Pura) passa de 600 páginas.
  • Pensamentos sobre o verdadeiro valor das forças vivas (1747);
  • História geral da Natureza ou teoria do céu (1755)
  • Monodologia Física (1756);
  • Meditações sobre o Optimismo (1759);
  • A Falsa Subtileza das Quatro Figuras Silogisticas (1762);
  • Dissertação sobre a forma e os princípios do mundo sensível e inteligível (1770);
  • Crítica da Razão Pura (1781);
  • Prolegômenos para toda metafísica futura que se apresente como ciência (1783);
  • Ideia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita (1784);
  • Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785);
  • Primeiros princípios metafísicos da ciência natural (1786);
  • Crítica da Razão Prática (1788);
  • Crítica do Julgamento (1790);
  • A Religião dentro dos limites da mera razão (1793);
  • A Paz Perpétua (1795);
  • Doutrina do Direito (1796);
  • A Metafísica da Moral (1797);
  • Princípios metafísicos da doutrina do direito (1797);
  • Antropologia do ponto de vista pragmático (1798).
 

4    O apriorismo

No campo da Metafísica, ninguém concordava com ninguém. Por isso Kant vai dizer que devemos nos conformar que, na metafísica, nosso entendimento tem limites. Não podemos conhecer Deus, alma, liberdade, imortalidade nós não podemos resolver. Todavia, Kant não irá “matar” a metafísica. Em Critica da Razão Prática ele falará da metafísica.

No campo da epistemologia, duas escolas brigavam entre si, sem nenhum acordo: Racionalismo versus Empirismo. O conhecimento das ciências avançava a passos largos. A matemática, a física, a astronomia chocavam o mundo com novas descobertas e o próprio Kant, como já foi dito, foi envolvido pelas descobertas de Newton.

Intrigado pelo fato de a filosofia não se desenvolver como as ciências, Kant se propõe a novas descobertas e é aí que ele tem seu grande insight, a sua revolução copernicana.
Copérnico havia percebido que muitas questões da astronomia baseadas no geocentrismo não correspondiam com as realidades observadas. Foi então que o astrônomo resolve tirar a Terra do centro e colocar o Sol. Foi o que Kant propôs para a filosofia, tirando o objeto do centro e colocando o sujeito. Antes, tanto os racionalistas quanto os empiristas tinham o objeto como o centro e o sujeito girando em torno dele. Kant faz o inverso.

A ideia fundamental do que Kant denomina a sua «revolução copernicana» consiste no seguinte: substituir a ideia de uma harmonia entre o sujeito e o objeto (acordo final) pelo princípio de uma submissão necessária do objeto ao sujeito. A descoberta essencial é que a faculdade de conhecer é legisladora ou, mais precisamente, que há algo de legislador na faculdade de conhecer. (De igual modo, algo de legislador na faculdade de desejar.) Assim, o ser dotado de razão descobre em si novos poderes. A primeira coisa que a revolução copernicana nos ensina é que somos nós que comandamos”. (DELEUZE, 2018, p. 24)

Kant afirma que a sensibilidade não é mecânica, como queriam os empiristas. O sujeito depende de estruturas que já existem no ser humano, ou como ele chama, à priori: tempo e espaço.

Por causa destas estruturas é que o sujeito consegue organizar o que experimenta. Para Kant, só podemos conhecer os fenômenos (que é como os objetos se nos apresentam), não os objetos em si (númeno), sua essência. Ele entende que as experiências nunca nos dão conhecimentos que sejam necessários e universais. No entanto, o conhecimento é construído a partir do fenômeno que coliga os dados recebidos pelas sensações às estruturas à priori da razão.
 

4.1  Formas de conhecimento: os juízos

Em Critica da Razão Pura, Kant irá responder “o que o ser humano pode conhecer ou ate onde a nossa mente pode chegar nos questionamentos sobre os porquês do mundo” (OLIVEIRA, 2019, p. 69).

Para isto, Kant diz que intelecto possui 12 categorias, sendo que a razão tem 3 ideias que compõem o objeto contudo não lhe regulam as ações: ideia psicológica (alma), cosmológica (o mundo) e teológica (Deus). São estas ideias que geram os juízos. Os juízos conectam dois conceitos, onde um é o sujeito e o outro, o predicado. São, desta forma, três os juízos: analíticos, sintéticos[1], sintéticos à priori. Assim sendo, os juízos são as conclusões acerca dos objetos.

4.1.1  Juízos Analítico

O predicado está, neste caso, “oculto” no sujeito. Portanto, nada acrescenta ao conhecimento, tão somente organiza. Os juízos analíticos são seguros, lógicos e dedutíveis. Exemplo: Platão é homem.
Vimos que nada acrescenta o predicado homem ao sujeito Platão.
 

4.1.2  Juízo Sintético

O predicado não está oculto. Ele acrescenta algo, acrescenta conhecimento. Exemplo: o carro é vermelho.

Aqui temos que é vermelho não está implícito no sujeito carro. Acrescenta-lhe algo, neste caso, a cor vermelha. Neste caso, o conhecimento pode ser inseguro e indutivo. Porém não é universal e necessária. Nem todo carro é sempre vermelho.
 

4.1.3  Juízo Sintético à priori

Neste caso, juntam-se os juízos analíticos e sintéticos e formam uma relação necessária e universal. O predicado não está implícito no sujeito, todavia lhe é mister.
Exemplo: 5+7=12

O resultado da equação (predicado) será sempre e necessariamente 12, no entanto, ao pensar nos números cinco e sete não necessariamente preciso pensar no 12. O 12 não está, assim, oculto na relação.
 

4.2  Tempo e espaço

Tempo e espaço são estruturas à priori sem as quais o ser humano não adquire conhecimento, segundo Kant. Já os sentidos são as estruturas à posteriori. Entretanto, só podemos conhecer o fenômeno, nunca o objeto em si (númeno).
Ao receber os dados na mente, o que Kant chama de intuição, a razão irá organizar estes dados em conceitos. Por sua vez, estes conceitos, chamados de categorias, estão classificados em:
  • Quantidade
    • Unidade
    • Pluralidade
    • Totalidade
  • Qualidade
    • Realidade
    • Negação
    • Limitação
  • Relação
    • Substância
    • Causalidade
    • Comunidade
  • Moralidade
    • Possibilidade
    • Existência
    • Necessidade
Para Kant, os fenômenos completam estas categorias. Eles não podem ser pensados fora destas categorias. "Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado, e sem entendimento nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas." (SALATIEL, 2019).


 
 
Figura 1
 

5   As Críticas

São três a mais importantes obras de Kant: Crítica da Razão (Teórica) Pura, Crítica da Razão Prática (Pura), Crítica do Juízo. Na Crítica da Razão Pura vai concluir que Deus, alma e mundo são ideias pensadas, mas não são realidades conhecidas. Apesar dessas ideias não poderem ser fenômenos conhecidos, em Crítica da Razão Prática, ele afirma serem pressupostas. Isto porque são condições para fundamentar e legitimar a moralidade.
A moral é um fato. É uma necessidade vital e universal. A moral é uma exigência transcendental. É a própria estrutura de todos os homens.
 

5.1   Crítica da Razão Pura

Neste primeiro dos três que parecem ser os mais importantes livros de Kant, vai nos detalhar os conceitos dos juízos. É em CRP que Kant diz que a metafísica não pode ser racionalmente resolvida pois nosso intelecto tem limites. Por isso aqui ele deixa de lado os objetos metafísicos, inclusive Deus.
De acordo com Oliveira (2019), o CRP tem a seguinte estrutura:
  • A Doutrina Transcendental dos Elementos
  • Estética Transcendental
  • Intuição pura de espaço
  • Intuição pura de tempo
  • Lógica Transcendental
  • Analítica Transcendental e dos Conceitos
  • Analítica dos Princípios
  • Dialética Transcendental
Por transcendental devemos compreender que seja a possibilidade de conhecimento. Por estética, devemos compreender como sensibilidade.
 

5.2   Crítica da Razão Prática

Em CRPr o filósofo retoma temas metafísico, como Deus, Alma e liberdade. Sua motivação é a necessidade da lei moral. Kant que demonstrar como razão determina a lei moral.
Nesta obra, Kant busca leis universais que possa regular as nossas práticas. Ele então descreve:
As Máximas: perguntas a fazer a si mesmo para verificar o modo de agir em determinada situação. Exemplo: se eu estiver com fome, devo roubar?
As Leis:
A lei moral, todavia, é um princípio prático de universalização de máximas, de sorte que algumas máximas possam ser válidas não apenas para o sujeito que a elege como princípio de sua ação, mas para todos os seres racionais que virtualmente se encontrem na mesma situação desse sujeito (KANT, apud OLIVEIRA, 2019, p. 46).
As Ações: a ação deste agente após fazer sua escolha moral. Ela precisa ser conforma o dever.
Ainda de acordo com Oliveira (2019), temos a seguinte estrutura na CRPp:
  • Conceito de um objeto da razão pura prática
  • Tábua das categorias da liberdade em relação aos conceitos do bem e do mal
    • Pendor para o mal na natureza humana: da origem do pendor ao mal
    • Aspectos ou graus do pendor ao mal
  • Impulsionadores da razão pura prática
  • Dialética da razão pura prática
  • Postulados da razão pura prática em geral: metodologia da razão pura prática
 

5.3   Metafísica dos Costumes

No Metafísica dos costumes, Kant dedicará sua atenção em comprovar e presumir o Imperativo Categórico, juízo sintético à priori basilar no qual toda e qualquer ação do ser humano obriga-se a submeter-se. Aqui ele consegue sistematizar o problema da moralidade do ser humano.
Novamente reproduzimos aqui a estrutura de acordo com Oliveira (2019):
  • Transição do conhecimento moral da razão vulgar para o conhecimento filosófico
  • Transição da filosofia moral popular para a Metafísica dos Costumes
  • Princípios fundamentais da teoria kantiana
    • Transição da filosofia moral popular para a Metafísica dos Costumes
  • Autonomia da vontade como princípio supremo da moralidade
  • Considerações finais sobre a metafísica dos costumes.
 

6    Conclusão

Sem a menor sombra de dúvida, Immanuel Kant foi um dos mais brilhantes filósofos de todos os tempos. Sua genialidade em buscar o equilíbrio entre o racionalismo e o empirismo foi de fato um exercício mental para muito poucos.

Se aqueles que criticam Kant em seu sistema dos juízos têm razão ou não, eu não sei. Contudo, no que diz respeito à ética, para mim, ele é insuperável.

“O céu estrelado acima e a lei moral no interior enchem o espírito de admiração e reverência sempre novas e crescentes quanto mais firme e assídua se mostra nossa reflexão” (STRATHERN, 1997, p. 48).
 
 
REFERÊNCIAS

Figura 1
Esquema Formas de Conhecimento


CHAUI, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

CONTRIN, G.; FERNADES, M. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2016.

DELEUZE, G. A filosofia crítica de Kant. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.

OLIVEIRA, F. H. C. D. Kant. São Paulo: Sol, 2019.

SALATIEL, J. R. Uol Educação. Kant - teoria do conhecimento - A síntese entre racionalismo e empirismo, 2019. Disponivel em: <encurtador.com.br/ajoBW>. Acesso em: 10 jun. 2019.

STRATHERN, P. Kant em 90 minutos. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
 
 
[1] Os sintéticos são também chamados de sintéticos à posteriori.

Postar um comentário

0 Comentários