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Os dualismos da Bíblia

João 7.10-13: “Mas, tendo seus irmãos subido à festa, ele também subiu, não publicamente, mas em segredo. Os judeus procuravam-no na festa e perguntavam: Onde ele está? Havia muitas opiniões sobre ele entre o povo. Alguns diziam: Ele é um homem bom. Mas outros diziam: Não, pelo contrário, ele engana o povo. Todavia ninguém falava dele abertamente, por medo dos judeus”.

Por que este dualismo das pessoas em relação a Jesus? Por que uns o acham bom e outros o acham mau?

“Jogar a água do banho com a criança dentro”. Certamente você já ouviu esta frase e sabe que ela quer dizer. Já o apóstolo Paulo disse: “examinai tudo, conservai o que é bom” (1Ts 5.21).



No século III surgiu uma heresia cristã, fundamentada no dualismo exotérico e filosófico, que existiria um conflito cósmico entre o Bem e o Mal, sendo estes poderes equivalentes em força e poder. O bem estaria no espírito e o mal na carne.

Ao combater esta heresia, muitos rejeitaram a ideia do dualismo* em qualquer circunstância. De fato, não existe um deus mau e um Deus bom, iguais em poder e força. Há um único Deus todo poderoso, criador de todas as coisas. O mal é uma consequência nefasta do afastamento da criação por desobediência a este Deus soberano.

De toda a criação, o homem foi criando em estado de bondade perfeita, inclusive com a liberdade para rejeitar este bem. Ao fazer esta escolha, sofre a consequência da Queda, que é este afastamento de Deus.

Na criação, há um empoderamento do mal, proporcionalmente ao grau deste afastamento da divindade. Assim, o mal toma lugar no mundo e muitas vezes pode superar o bem que o homem poderia praticar, podendo mesmo anular toda a sua capacidade de praticar o bem.

Ou seja, “debaixo do sol”, quer dizer, no mundo natural dos homens, é inegável a existência de um dualismo.
Não entendo o que faço, pois não pratico o que quero, e sim o que odeio. E, se faço o que não quero, concordo que a lei é boa. Agora, porém, não sou mais eu quem faz isso, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; pois o querer o bem está em mim, mas não o realizá-lo. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. Portanto, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Desse modo, descubro esta lei em mim: quando quero fazer o bem, o mal está presente em mim. Porque, no que diz respeito ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos membros do meu corpo outra lei guerreando contra a lei da minha mente e me fazendo escravo da lei do pecado, que está nos membros do meu corpo. (Rm 7.15-23).
Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne. Eles se opõem um ao outro, de modo que não conseguis fazer o que quereis. (Gl 5.17).

Dualismo epistemológico.
Como foi disto, desde a queda o homem passa a viver um dualismo. Se antes ele conhecia só o bem, agora, há nele o bem e o mal. Se na natureza humana há uma guerra, conforme demonstra Paulo, na sociedade esta batalha parece se mostrar real.

Adão tem dois filhos, Caim e Abel. Olhando apenas pela perspectiva humana, parece que Caim é mau e Abel, bom. Tanto é que Caim assassina o irmão por inveja. Sete toma o lugar de Abel, e deles seguem duas linhagens.

Sobre os descendentes de Caim, a quinta geração cai em maior maldade que o patriarca: Lameque mata um homem e um jovem por motivo absolutamente banal – (Gn 4.23).

Sobre os descendentes de Sete, a quinta geração supera a “bondade” de seu patriarca: Enoque andou com Deus e foi levado para o céu sem passar pela morte física. Além disso, o filho de Sete, Enos, dá início ao culto a Deus – (Gn 4.26; 5.24).

Filhos de Deus e filhas dos homens – Gn 6.1-4
Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se na terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas e, dentre todas elas, tomaram as que haviam escolhido. Então disse o SENHOR: O meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, pois ele é carne; os seus dias serão cento e vinte anos. Naqueles dias os nefilins estavam na terra, e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome da antiguidade.
Uma das possibilidades de interpretação deste texto é que os filhos de Deus se referem aos descendentes “santos” de Sete e as filhas dos homens aos descendentes “ímpios” de Caim. Sendo ela uma possibilidade real, reforça o nosso entendimento deste dualismo social, onde há uma divisão entre uma sociedade santa, justa, correta e outra injusta, ímpia, má.

Israel e Gentios
Precisamos dar um salto. Agora estamos em Moisés e o surgimento da nação sacerdotal. Está claro para nós que a nação de Israel foi escolhida por Deus para ser povo (etnia) santo, e aqui podemos falar num viés político, podemos falar em Estado. Temos então um Estado santo e os demais, ímpios.

Reino de Deus e reino do mundo
Está claro também para nós que o Novo Testamento nos fala da existência de dois, dois e somente dois, reinos: de Deus e do mundo (ou, das trevas, do diabo). Ou se está de um lado ou de outro. Não há uma “Suíça”, ou, Estado Neutro, na batalha travada entre os dois reinos.

Poderíamos falar em reino de vivos e de mortos, onde o reino dos mortos são aqueles que não nasceram de novo e, o dos vivo, os que foram regenerados (gerados de novo), por meio de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo.

Disse Jesus: Quem não está comigo, está contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha – Lc 11.23.

Politkós
Aristóteles diz que o ser humano é um “animal político”. Ou seja, o homem pertence à cidade. Não pode viver sem pertencer a uma cidade. Ele fala isto num contexto político. O termo política, político, vem de pólis, que é cidade, no grego. Hoje nós falamos cidadão, cidadania, cidade.

E a Bíblia não vai negar esta realidade. Jeremias nos diz: “Empenhai-vos pela prosperidade da cidade, para onde vos exilei, e orai ao SENHOR em favor dela; porque a prosperidade dela será a vossa prosperidade” (negrito é meu).

Jeremias está ao menos uns duzentos anos antes de Aristóteles e revela que, como politikós que somos, devemos nos interessar pelos assuntos cotidianos da cidade-estado.

Jerusalém! Cantada em verso e prosa nos Salmos. Leiamos o 122:
Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do SENHOR.
Ó Jerusalém, nossos pés estão dentro das tuas portas!
Jerusalém, que és construída como uma cidade bem estabelecida,
para onde sobem as tribos, as tribos do SENHOR, como testemunho para Israel, a fim de render graças ao nome do SENHOR.
Ali estão os tribunais de justiça, os tribunais da casa de Davi.
Orai pela paz de Jerusalém, prosperem os que te amam!
Haja paz dentro de teus muros e prosperidade em teus palácios.
Por amor aos meus irmãos e amigos, direi: Haja paz em ti.
Por amor à casa do SENHOR, nosso Deus, buscarei teu bem.

Dualismos na Bíblia e no “mundo”
Temos muitos dualismos temos na Bíblia. Todas elas estão agrupadas em oposição:

Profano - x - Santo
Perdido - x - Salvo
Noite     - x - Dia
Trevas   - x - Luz
Carnal   - x - Espiritual
Lei         - x - Graça

A filosofia, ciência que estuda “tudo”, do ponto de vista racional, também apresenta seus dualismos: físico e metafísico; empirismo e racionalismo; idealismo e materialismo; etc. No entanto, contemporaneamente, há duas concepções que tem nos afetado profundamente nos últimos anos: direita e esquerda.

Uma coincidência(?)
O conceito de direita e esquerda surgiu na França, na ocasião da revolução de 1789. Dizem alguns que foi casual. A classe trabalhadora estava descontente com a nobreza devido aos arrochos. Eles queiram mudanças. A nobreza, os ricos e o clero, queriam manter as coisas como estavam. Fizeram uma assembleia para decidir. O rei presidiu a sessão e se assentou no centro. Os que queriam mudanças, sentaram-se à esquerda. Os que queriam manter as coisas como estavam, à direita.
Os que queriam mudanças estavam reivindicavam coisas que estão completamente alinhadas hoje com o que os socialistas/comunistas desejam. Em especial, mas por outros fatores, uma oposição violenta contra a Igreja, o cristianismo e valores cristão.

A curiosidade é que na bíblia, a tabela que identificamos acima coloca a direita como sendo aqueles que estão no reino de Deus e, por sua vez, os que estão no reino das trevas, a esquerda. Vejamos Mt 25.31-33,41:
Quando, pois, o Filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se sentará no seu trono glorioso; e todas as nações serão reunidas diante dele; e ele separará uns dos outros, à semelhança do pastor que separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à esquerda. Então ele dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Malditos, afastai-vos de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos.

Conclusão
Está claro para nós que de fato há um alinhamento natural da humanidade. Este alinhamento não necessariamente se dá apenas em pessoas nascidas de novo. O mundo está dividido entre aqueles que se simpatizam com as coisas de Deus e aqueles que se simpatizam com as coisas do diabo. A criação é dualista, vive entre duas forças opostas “por natureza”.

E parece que nestes alinhamentos, os que são de direita, ainda que haja hipocrisia por parte de alguns (ou muitos), a tendência natural é se inclinarem para as coisas que o cristianismo valoriza. Por sua vez, a oposição, valoriza o que o cristianismo condena.

Não é uma questão tão preta ou branca assim. Há muitas variações de cinza. Entretanto, é possível cravar uma só coisas: Não dá para ser nascido de novo, genuinamente e ser 100% de esquerda. Há valores tolerados na esquerda inegociáveis para um cristão genuíno: aborto, ideologia de gênero, indisciplina, tolerância para com o pecado.

O homem é complexo. Uma pessoa pode ter quase todos os conceitos de direita, mas em um ponto ela pode se perceber inclinada ao pensamento da esquerda. Aí surgem conflitos internos e externos. Interno, pois ela vai parecer contraditória, e por isso, falsa. Externo, porque o grupo em que ela faze parte será contrariado por ela, e vice-e-versa, gerando crises interpessoais.


* Existe uma diferenciação entre dualismo e dualidade. Jonas Madureira no-la ensina, em seu livro Inteligência humilhada, de forma magistral. Contudo, para fins de "provocação" eu mantenho aqui o termo dualismo ressaltando que reconheço que a diferenciação dos termos é fundamental.

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