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Cego é o que não quer ver

Introdução
Após ser expulso da sinagoga, o ex-cego é encontrado por Jesus, que agora pode inquirir dele sobre sua fé. Jesus se revela claramente quem é e, empoderado de fé salvadora, o homem confessa Jesus como Senhor e é um dos primeiros a adorá-lo como Deus. Esta atitude de prestar culto a Jesus, aos olhos dos fariseus exercerá um julgamento severo àqueles incrédulos e soberbos doutores da lei.

Jesus ficou sabendo que o haviam expulsado; e, encontrando-o, perguntou-lhe: Crês no Filho do homem? Ele respondeu: Quem é ele, senhor, para que eu nele creia? Jesus lhe disse: Tu já o viste, e é ele quem está falando contigo. Disse o homem: Eu creio, Senhor! E o adorou. Jesus então prosseguiu: Eu vim a este mundo para julgamento, a fim de que os que não veem vejam, e para que os que veem se tornem cegos. Ouvindo isso, alguns fariseus, que ali estavam com ele, perguntaram-lhe: Será que nós também somos cegos? Jesus lhes respondeu: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: Nós vemos, o vosso pecado permanece. (Jo 9.35-41 - Almeida XXI)
O ex-cego demonstrou uma coragem que só poderia vir de uma fé salvadora, Aquele tipo de fé que é resultado do novo nascimento. Veja o contraste entre ele e seus pais. Com muita habilidade, os pais não se envolveram na disputa. Nem defenderam Jesus, nem tomaram o partido dos fariseus. Já o filho deles corajosamente os enfrentou, mesmo ciente das ameaças, que se concretizaram: ele fora expulso da sinagoga.

Jesus pergunta a ele: você crê no filho do homem? Para nós hoje seria como quando alguém pergunta: você aceita Jesus como seu Senhor e Salvador?

Notemos que Jesus estava a procura deste que recebera o milagre. Segundo Werner de Boor, a palavra encontrar pode ser entendida como o encontrar de algo que se buscava diligentemente. Faz sentido esta interpretação quando sabemos que Jesus veio para buscar o que se havia perdido (Lc 19.10).

Tudo isto reforça nossa linha de raciocínio de que nada aqui foi mera coincidência. Tudo estaria cuidadosamente calculado. Aquele cego estava destinado para a salvação deste antes da fundação do mundo. Entretanto, podemos perceber que se ele não tivesse obedecido as palavras de Jesus, indo lavar-se no tanque de Siloé, provavelmente ainda estaria cego. Era imprescindível este gesto de obediência.

Isto nos prova que quando falamos em doutrina da salvação, se faz uma necessária harmonização entre predestinação e livre agência. O novo nascimento é um ato monergístico divino. Todas as pessoas nascem cegas para a verdade. Todos nós éramos cegos de nascença. Todos os salvos estavam mortos em seus delitos e pecado. A salvação é uma graça, um presente gratuito de Deus, do qual o homem não tem a menor capacidade de operar.

Mas, de certo modo, uma vez salvo, uma vez tendo o entendimento aberto, a fé operante, há o empoderamento do Espírito Santo para que o ser humano obedeça aos mandamentos do Senhor. A partir daí, a livre agência, ou como muitos preferem, o livre arbítrio, está, em certo sentido, novamente ativado e é responsabilidade do salvo desenvolver sua salvação (conf. Fp 2.12). Em que sentido? No sentido de realizar o trabalho pelo qual se foi escolhido: boas obras (ver Tiago 2.14-26).

Jesus julga ou não julga? Paradoxo - cego enxerga, enxergador fica cego.

Jesus não veio para julgar, no sentido de emitir a sentença condenatória, porque isto já foi feito. No dia em pecar, certamente morrerás (a frase não é exatamente assim, mas está de acordo com o sentido). Jesus veio para exercer misericórdia e livrar alguns da condenação, tirando-os da prisão.

No sistema penal brasileiro, que podemos usar como exemplo, quando um réu é condenado, para que ele efetivamente vá para o presídio, deve ser emitida a declaração de transitada em julgado. Quando isto acontece nada mais há que se possa fazer. Não existe mais nenhum recurso. Acabou o trabalho do promotor e do advogado. O réu sai do fórum e é levado para o presídio onde ficará trancado.

Entretanto, o presidente da república pode emitir um indulto. É um ato em que condenados são perdoados do cumprimento dos anos de cadeia  e podem ser libertos. Não se trata de declaração de inocência, mas de perdão. O indultado não tem nenhum mérito. Trata-se de uma ação misericordiosa de uma autoridade. Uma vez liberto, o indultado deve cumprir regras ou poderá ser de novo preso.

Jesus veio ao mundo para indultar os pecadores. Por isso dele se diz que não veio para exercer condenação. O julgamento já foi declarado transitado em julgado lá no Éden (ver Jo 3.17).  Mas, o que seria então a afirmação de Jo 9.39, "eu vim a este mundo para juízo"?

A Bíblia de Jerusalém traduz este verso assim: "Para um discernimento é que vim a este mundo: para que os que não vêem, vejam, e os que vêem, tornem se cegos". Não sei se o termo original permite mesmo ser traduzido por discernimento, todavia, esta tradução apoia o sentido de que Jesus não veio emitir sentença condenatória, mas uma evidenciação. 

Notamos que os fariseus não se achavam cegos, entretanto não viram Jesus como o Messias, ainda que eles dominassem as Escrituras e sabiam de todas as profecias. Já o cego de nascença, que nunca frequentara a "faculdade teológica" dos fariseus, deixou-se ser curado e pôde enxergar perfeitamente. Ele é uma das primeiras pessoas a adorar Jesus.

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Deus, desde antes da fundação do mundo preparou aquele homem cego de nascença para ser uma imagem viva para aqueles fariseus, que não eram cegos fisicamente. A cura e a declaração de fé daquele homem deveria ser o maior testemunho para que os fariseus reconhecessem Jesus como o Cristo. 

Eles se recusaram a ver o que estava diante de seus olhos. Por isso, por se acharem visuais (visão perfeita), ficava demonstrado que a recusa deles não se trata de uma rejeição divina, mas de uma decisão de sua livre agência.

Agora, o fato é que eles, na verdade, eram cegos. Lembre-se: a humanidade inteira tronou-se cega de nascença ao pecar, desde Adão. Poderíamos parafrasear Romanos 5.12 assim: Concluindo, da mesma forma como o pecado ingressou no mundo por meio de um homem, e pelo pecado a cegueira, assim também a cegueira foi legada a todos os seres humanos, porquanto todos pecaram.

Na sua arrogância, os cegos fariseus não reconheciam a própria cegueira. Por isso permaneceriam cegos, enquanto aquele que reconhece que é cego, é curado e passa a enxergar tudo perfeitamente. Física e espiritualmente. Assim, o julgamento que Jesus faz não é uma sentença declaratória, mas uma evidenciação de quem é quem na verdade.

Concluímos que a vida do cego foi cuidadosamente planejada "para que se manifestasse a glória de Deus" (Jo 9.3). Entendemos que por mais que a o novo nascimento seja uma obra exclusiva de Deus, uma vez salvos os crentes não são isentos de suas responsabilidade em obedecer as Escrituras. Se não há condição para a salvação (salvação incondicional), há condição para permanecer salvo. 

Entretanto, somos presenteados com o poder do Espírito Santo, seus dons e seu fruto, para que tenhamos todas as capacidades de praticar as ordens do Senhor.

Você não consegue ainda enxergar mudanças significativas em sua vida? Continua ainda como um mendigo, escravos dos pecados,  "a saber: imoralidade, impureza e indecência; idolatria e feitiçaria; inimizades, rivalidades e ciúmes; ira, ambição egoísta, discórdias, partidarismo e inveja; bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas" (Gl 5.19-21)? Você sabia que os "que as praticam não herdarão o reino de Deus"?

Sendo assim, faça como aquele cego. Reconheça Jesus como o Cristo, o enviado de Deus-Pai para salvá-lo. Reconheça que muitas vezes você não se enxerga tão pecador assim. Somente aí Jesus irá curá-lo de sua cegueira e, enxergando perfeitamente, poderá clamar pela misericórdia divina que lhe dará o indulto graciosos que o tirará da condenação eterna.

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