Como eu posso ter certeza da salvação eterna? O que eu preciso fazer para alcançar a certeza de que estarei no céu, e viverei para sempre no paraíso de Deus? Se a humanidade inteira está totalmente depravada, a ponto de não sobrar ninguém, qual a esperança de salvação?
Hoje em dia ninguém duvida da universidade do Evangelho; que Abraão é o patriarca de todos os cristãos no mundo inteiro; que há um fio condutor que liga diretamente e sem ruptura, todos, judeus e cristãos, validando o termo “judaico-cristão”.
É igualmente claro que, da perspectiva bíblica, há apenas dois povos, que no passado era denominado judeus e gentios. Hoje, dizemos cristãos e não cristãos. Porém, de onde tiramos essas ideias? Qual a base de sustentação dessa crença? Como podemos ter certeza de que não estamos enganados?
Tudo começa com Abraão - Romanos capítulo 4
Nos três primeiros capítulos da carta aos romanos Paulo comprova que a humanidade inteira está em dívida eterna com Deus. Uma dívida que somente a morte eterna poderia quitar. Porém, ele antecipa que muitos são salvos desta condenação: o justo viverá pela fé (1.17). No capítulo 4, o apóstolo sustenta sua argumentação de que a salvação eterna se fundamenta na fé e é uma dádiva graciosa e imerecida. Ele argumentará que tanto Abraão como Davi ensinam assim, usando termos e expressões muito conhecidos em seu tempo.
Contexto
Os judeus tinham por certo que Abraão foi o mais meritoso dos judeus. Suas obras de justiça seriam tão elevadas que ele teria crédito para salvar todos os judeus. Eles aplicavam o termo contábil imputar ou creditar. Você já deve ter visto em algum filme, duas pessoas num bar. Eles tomam uma bebida e um diz assim: “eu pago”, ou “põe na minha conta”. Pois é, para os judeus, o pecado deles poderia ser posto na conta de Abraão.
Para os judeus, a circuncisão era o princípio da justificação. Sem a circuncisão não haveria justificação. Em outras palavras, para ser considerado justo diante de Deus, seria necessária a circuncisão.
Por fim, no judaísmo, a salvação seria exclusiva aos judeus e a uns pouquíssimos gentios que se submetessem a praticar as obras da lei, começando pela circuncisão. Paulo destrói este pensamento para provar que qualquer pessoa, de qualquer etnia pode ser considerada filha de Abraão. Que esta filiação não se dá pelos méritos pessoais de cada um, mas sim pelo fato de Cristo ter morrido em favor daqueles a quem Deus deseja tornar justo.
Justificação pela fé (4.1-9)
Paulo alude duas passagens do AT. No verso 3 ele cita Gn 15.6 e nos versos 7,8 ele cita Sl 32.1,2. Reproduzo a segui a tradução ACF2007:
- Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.
- Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, E cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.
Nestas duas passagens Paulo deixa claro que não é o que alguém faz ou deixa de fazer que o torna justo diante de Deus, mas sim o ato monergístico de Deus em declarar alguém justificado.
Abraão ainda não tinha feito nada de bom e Deus o declarou justo. Tudo o que Abraão fez foi exercer fé na declaração divina. Por outro lado, Davi fez duas coisas passivas de morte: adultério e assassinato. Entretanto, Deus não imputou nele estes pecados, mas agiu com graça e misericórdia. Davi se apropriou desta misericórdia pela fé.
Logo, é a fé nos méritos de Cristo que salva o pecador, e não aquilo que ele é capaz de fazer, pois ficou provado nos três capítulos anteriores que tudo o que o ser humano é capaz de fazer é o que provoca a ira de Deus.
Mas, Abraão não foi justificado pela obra da circuncisão? (10-12). Não, pois ele foi declarado justo ao menos 13 anos antes de ser circuncidado. Tudo o que isso prova é que a salvação é pela fé para as boas obras, ou seja, Deus justifica o pecador, salvando-o a fim de que ele pratique as boas obras.
Em que sentido Abraão é pai de muitos?
Abraão é sem dúvida o patriarca dos judeus por linhagem sanguínea. Mas é o patriarca espiritual de todos os cristãos pela linhagem da fé. Como a fé vem antes da circuncisão, logo, a circuncisão é desnecessária para a salvação, visto que ela é uma obra da lei.
Quando uma pessoa exerce fé na Palavra de Deus, ela se torna filho espiritual de Abraão. Por isso é correto dizer que Deus constituiu Abraão por pai de muitos povos.
E a lei não pode salvar? (13-15)
Não, porque a lei aponta para a transgressão. Ninguém ganha um prêmio por nunca ter cometido um roubo. Mas se a pessoa rouba, a lei aponta seu pecado. A lei é incapaz de salvar, apenas de condenar. Neste sentido, a "lei provoca a ira".
As obras são consequência da fé salvadora, atribuídas a Abraão e a todos os que igualmente creem (16-24). Tanto a circuncisão quanto a promessa de ser patriarca de muitos povos, vieram antes de qualquer ação meritória por parte de Abraão. Por ter ele crido, tornou-se tudo o que Deus havia dito que ele seria tornado.
E as bênçãos dadas a Abraão são também nossas. De que modo? Através de Jesus Cristo. Jesus pagou a dívida que tínhamos como Pai, morrendo em nosso lugar (4.24,25).
Deus não se esqueceu da dívida. Alguém precisava pagá-la. Só há justiça quando a lei é aplicada. Se a lei dizia que a alma que pecar, morrerá, então eu e você teríamos de morrer. “Deus, porém, prova o seu amor por nós, pelo fato de, sendo nós ainda pecadores, ter Cristo morrido por nós” (Rm 5.8 – ACF2007).
Conclusão
Deus salva os piores pecadores creditando os méritos de Cristo na conta daqueles a quem Ele deseja salvar. Nos apropriamos desta salvação quando reconhecemos nossa incapacidade de merecer a salvação; quando reconhecemos nossos pecados e clamamos por perdão, reconhecendo igualmente a Jesus com o único Senhor e Salvador.
Img: Saint Paul, Rembrandt van Rijn (and Workshop?), c. 1657, in encurtador.com.br/cCFT2
Romanos 4:1-25
Que diremos, então, a respeito de Abraão, nosso pai segundo a carne? O que foi que ele conseguiu? Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem do que se orgulhar, porém não diante de Deus. Pois o que diz a Escritura? Ela diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça.” Ora, para quem trabalha, o salário não é considerado como favor, mas como dívida. Mas, para quem não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça. E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado aquele a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras. Davi disse: “Bem-aventurados aqueles cujas transgressões são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado aquele a quem o Senhor jamais atribuir pecado.” Esta bem-aventurança vem apenas sobre os circuncisos ou será que ela vem também sobre os incircuncisos? Porque dizemos: “A fé foi atribuída a Abraão para justiça.” Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou sendo ainda incircunciso? Não foi no regime da circuncisão, mas quando ele ainda não havia sido circuncidado. E Abraão recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda não havia sido circuncidado. E isto para que ele viesse a ser o pai de todos os que creem, embora não circuncidados, a fim de que a justiça fosse atribuída também a eles. Ele é também pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado. A promessa de que seria herdeiro do mundo não veio a Abraão ou à sua descendência por meio da lei, e sim por meio da justiça da fé. Pois, se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa. Porque a lei suscita a ira; mas onde não há lei, também não há transgressão. Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja garantida para toda a descendência, não somente à descendência que está no regime da lei, mas também à descendência que tem a fé que Abraão teve — porque Abraão é pai de todos nós, como está escrito: “Eu o constituí por pai de muitas nações” — diante daquele em quem Abraão creu, o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem. Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe havia sido dito: “Assim será a sua descendência.” E, sem enfraquecer na fé, levou em conta o seu próprio corpo já amortecido, tendo ele quase cem anos, e a esterilidade do ventre de Sara. Não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que Deus era poderoso para cumprir o que havia prometido. Assim, também isso lhe foi atribuído para justiça. E as palavras “lhe foi atribuído” foram escritas não somente por causa dele, mas também por nossa causa, visto que a nós igualmente nos será atribuído, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação.


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