Iniciando a parte final da carta, Paulo passa a tratar nos capítulos 12 a 15 o que podemos chamar de comportamento cristão, ou ética cristã. Não apenas da perspectiva espiritual, mas também social. Aliás, nosso comportamento na sociedade é consequência direta de nossa espiritualidade.
Se nos 11 primeiros capítulos Paulo tratou de demonstrar a pecaminosidade de toda raça humana, de como muitos podem ser justificados, veremos a seguir como o salvo persevera na salvação.
Nos dois primeiros versos do capítulo 12 começa a sessão onde, a meu ver, o apóstolo explica o que o crente deve fazer para não "ser cortado" da videira da qual um dia foi enxertado.
Portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, peço que ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o culto racional de vocês. E não vivam conforme os padrões deste mundo, mas deixem que Deus os transforme pela renovação da mente, para que possam experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12.1,2).
TULIP
Se prestei mesmo a atenção nas aulas do o pastor, professor Dr. Jonas Madureira, aprendi que antinomia, na filosofia e teologia, é uma situação onde duas afirmações podem não se harmonizar logicamente, não sendo contudo uma contradição.
Eu penso, desta forma, que as duas naturezas de Cristo são uma antinomia. Jesus é Deus! Jesus é homem. Minha mente humana e limitada não harmoniza estas duas realidades coexistindo em Cristo, mas uma não contradiz a outra.
Os 5 pontos do Calvinismo, cujo acróstico em inglês TULIP é de conhecimento amplo, sintetizam a lógica da predestinação.
T - Total depravity (Depravação total)
U - Unconditional Election (Eleição incondicional)
L - Limited Atonement (Expiação limitada)
I - Irresistible Grace (Graça irresistível)
P - Perseverance of Saints (Perseverança dos Santos)
Os calvinistas dizem que há uma sequência lógica nos 5 pontos, de modo que rejeitar um é rejeitar todos. Nenhum contorcionismo exegético em Romanos 1 a 9 consegue negar o fato de que os 4 primeiros pontos são falsos. A discussão fica no Perseverança dos santos, especialmente ao ler o capítulo 11. A metáfora do enxerto, quando Paulo alerta para o perigo de ser desenxertado, parece favorecer a uma perda da salvação.
Se, porém, alguns dos ramos foram quebrados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado no meio deles e se tornou participante da raiz e da seiva da oliveira, não se glorie contra os ramos. Mas, se você se gloriar, lembre que não é você que sustenta a raiz, mas é a raiz que sustenta você. Então você dirá: "Alguns ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado." Correto! Eles foram quebrados por causa da incredulidade, mas você continua firme mediante a fé. Não fique orgulhoso, mas tema. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você. Considere, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para com você, a bondade de Deus, desde que você permaneça nessa bondade. Do contrário, também você será cortado. (Romanos 11.17-22 [NAA] - O negrito é meu).
Ora, o argumento da lógica calvinista é que se Deus elegeu para a salvação, é impossível a pessoa perder, pois aí não haveria eleição de fato.
Faz sentido!
Logicamente.
Voltemos as duas naturezas de Cristo. Se Jesus é, era e sempre foi 100% Deus, ele é, era e sempre será onisciente. Então, ao dizer aos discípulos que não sabia o dia da sua segunda vinda ele mentiu? Ou ele, por 33 anos deixou de ser Deus?
A lógica humana não consegue harmonizar a coexistência de Cristo em duas naturezas, mas não é nem filosófica nem teologicamente errado afirmar: Jesus é 100% Deus! Jesus é 100% homem! Não se trata de fé cega. Trata-se de incapacidade humana de compreender a harmonia das duas realidades.
Rogo-vos
Romanos 12 começa com a ênfase de Paulo. Ele apela, suplica, encoraja para que os crentes se comportem da maneira correta. Ele não afirma que Deus irá agir, mas sim que é uma responsabilidade de cada salvo.
Sacrifício vivo
Tenhamos em mente a imagem que eles tinham de sacrifício era a de uma animal num altar, degolado e partido e sendo queimado como oferenda a Deus. Isso remete a dor, sofrimento, renúncia, abnegação, humilhação...
Jesus morreu uma vez por todos, para que todos nós agora, "morramos" continuamente para o mundo, "nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele?" (Rm 6.2 - NVI).
Culto racional
Considerando que Paulo escrevia para uma cultura helenizada, penso que aqui ele queira refutar tanto os cultos pagãos, que ainda usavam de rituais exotéricos, ou de substâncias alucinógenas, sacrifícios de animais, como também o culto à razão, ou, em palavras simples, o culto ao saber. Em dias atuais, eu diria, culto à ciência.
Nosso culto a Deus deve ser racional no sentido de ser mentalmente intencional e livre. Deve ser intelectual e não meras extravagâncias sensoriais. Não que expressões de emoção e paixão sejam proibidas, mas não pode algo sem ordem e decência. Aqui temos um encorajamento para o que chamamos de uso da teologia e dos estudos.
Outra aplicação que fazemos deste rogo paulino é que o culto racional é o tempo todo e não apenas nos encontros congregacionais. Cultuamos a Deus com nosso comportamento no trabalho, na escola, no lar... na sociedade como um todo.
Não conformidade e mutação
No verso 2, duas palavras muito fortes: não conformidade e mudança. Ambas estão no imperativo. É uma ordem. Você não deve tomar a forma do mundo. Como?
Tomamos a forma do mundo quando nos comportamos como o mundo se comporta. O mundo jaz no maligno. O mundo odeia Cristo. O mundo quer queimar as Bíblias. O mundo quer que o cristianismo seja extinto. Assim, a priori, tudo o que o mundo acha bom, quase certamente será o oposto. Satanás, o príncipe deste mundo é mentiroso e pai da mentira. Cuidado com que o mundo diz que é bom.
A palavra mudança é metamorfose. Nos lembra a mudança da lagarta em borboleta. É uma mudança total. Você também tem de mudar completamente. Seus valores, seus prazeres, seus objetivos, seus sonhos, seu modo de viver, suas palavras, suas atitudes, seu vestuário, sua alimentação... tudo deve ser transformado em algo que nem de longe lembre o seu passado.
Causa e objetivo
Experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Temos dois pontos de vista desta frase. Primeiro, ela pode ser uma causa de sua não conformidade com o mundo e de sua transformação de vida. À medida em que estas atitudes vão crescendo em sua vida, você vai experimentar a perfeita, boa e agradável vontade de Deus.
Mas, a agradável, boa e perfeita vontade de Deus é também o objetivo, o alvo de todo aquele que verdadeiramente nasce de novo. E você só alcançará este objetivo se não se moldar ao mundo e buscar a transformação.
E o quinto ponto do calvinismo?
Bem, pareceu mas não fugi do assunto. O quinto ponto é a perseverança. A lógica calvinista diz que o salvo irá perseverar, ainda que caia esporadicamente. Já os arminianos afirmam que o crente perde a salvação. Nem Calvino nem Armínio foram hereges. E nenhum crente, de boa vontade, honesto e sincero considera a teologia do outro uma heresia. Todas elas estão recheadas de bases bíblicas nos quais se apoiam.
Considerando a antinomia, sinto-me muito tranquilo ao apelar para ela e entender que Deus garantirá a perseverança de todos os que querem perseverar.
Preciso ser humilde o suficiente para aceitar que os argumentos arminianos quando dizem respeito aos alertas para o perigo da apostasia não são meras palavras figurativas. Por outro lado, minha lógica calvinista me diz que se Deus me elegeu para salvação, ele me dará os meios para eu perseverar até o fim. Contudo, este mesmo Deus fica me dizendo que seu eu não mudar, não obedecer, não ser santo, se eu me conformar com o mundo, é possível que eu seja desenxertado.
Assim, somente apelando para a antinomia. O que eu não compreendo eu aceito, desde que as escrituras me deem base para acatar. Jesus era 100 % Deus, mas viveu como sendo 100% homem aqui nesta terra. Eu sou 100% salvo, mas devo viver como se fosse 100% possível perder este presente se eu não usar dos dons e poderes do Espírito para mudar e não me conformar com o mundo.
Img: Saint Paul, Rembrandt van Rijn (and Workshop?), c. 1657, in encurtador.com.br/cCFT2


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