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O mistério da ressurreição


Quando Trófemes chegou em casa, sua esposa, Helena, foi logo dizendo:

— É verdade que Jesus não ressuscitou em corpo, e que foi só o espírito dele? Desta forma todos nós já ressuscitamos espiritualmente?

— O quê? Não estou entendendo. Como assim? — perguntou Trófemes sem entender nada.

Helena explicou que Cassandra foi visitá-la e disse que esse assunto foi o tema da explicação do último culto. Como o casal Trófemes e Helena estavam ausentes, não sabiam das novas.

— Helena — continuou Trófemes — vamos perguntar para Paulo. Sei que tem alguém que irá visitá-lo, levando cartas. Vou pedir para incluir esse assunto. Mas antes, vou me inteirar dos detalhes.

Trófemes apurou que se estava ensinando na igreja de Corinto era que a ressurreição de que Paulo falara quando passou 18 meses entre ele não era para ser entendida literalmente. Tal ressurreição era apenas espiritual. Tendo ido procurar um dos líderes da Igreja, ele ouviu a seguinte explicação

— Nós, os gregos fomos ensinados na filosofia que a alma é imortal e pura. O corpo, é mortal e ruim. Por isso, na morte, o corpo é destruído. Quando recebemos os ensinos das Escrituras, que em Eclesiastes está escrito: o corpo volta ao pó e a alma a Deus, que o deu, conclui-se que no batismo cumpre-se a ressurreição.

— Deixa ver se entendi, — interrompeu Trófemes — o senhor está dizendo que o batismo de João é um simbolismo, uma dramatização. Ou seja, o batismo é a ressurreição?

Trófemes colocou ênfase na voz ao pronunciar o é a.

— Simmmm... isso mesmo! — prosseguiu o ancião — Além disso, Epicuro nos ensinou a desfrutar do melhor desta vida. Desfrute o melhor hoje e você não precisará de mais nada. E tem mais: se você morre e ressuscita, morre e ressuscita, neste mesmo corpo, que vantagem há nisso?

Trófemes saiu pensativo. Mas ainda assim, decidido a perguntar a Paulo. Procurou o mais rápido que pôde o amanuense que redigiria a carta para pôr nela suas dúvidas.

******************************

Alguns meses depois, toda a congregação foi convidada para a celebração da comunhão. Aquele seria um dia especial, pois estariam lendo a carta de Paulo que acabara de chegar. Trófemes estava ansioso por saber se suas perguntas haviam sido respondidas.

Chegou o domingo. Trófemes estava ansioso. Tanto que nem dormira bem naquela noite. Infelizmente Helena não poderia estar presente por problemas de saúde.

No fim do dia, Helena também aguardava ansiosa a volta do esposo, para lhe contar todos os detalhes. Chegando em casa, Trófemes nem pensou em nada mais. Estava eufórico e descarregou toda sua alegria nos relatos para a esposa.

— Tu nem imaginas, mulher. Paulo respondeu tudinho. Acho até que foi a resposta para minha pergunta que ele mais gastou tinta.

— Vai, me conta logo. O que foi que ele disse.

Trófemes se sentou ao lado da esposa e começou:

— Ele pediu para a gente buscar na memória tudo o que ele ensinou. Disse que é isso que nos manterá firmes. E tu sabes, né, ele deu aquela cutucada: “a menos que tenham crido em vão”.

— Esse Paulo... continua o mesmo. Firme, mas cheio de amor — completou Helena com um semblante de carinho e saudade do apóstolo.

— É verdade... Bem, na resposta ele escreveu que Cristo morreu e ressuscitou pelos nossos pecados. Alguém mais experiente na congregação disse que ele estava se referindo ao profeta Isaías e ao rei Davi. Disse que certamente Paulo estava fazendo referência às palavras do apóstolo Mateus, que relatou que um dia Jesus havia dito que o profeta Jonas é um sinal do que Jesus iria passar.

— O que exatamente Mateus disse?

— Tu não te lembras mulher? Lembras aquele outro irmão que veio de Jerusalém, e que disse que ouviu do próprio Mateus: “Por que assim como Jonas esteve três dias e três noites no vento do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra”?

— Ah, lembro! Uau, tu decoraste!

— Tá, tá... deixa eu continuar.

Trófemes se levantou e continuou.

— Paulo disse que Jesus ressuscitou e apareceu para Pedro e todos os demais apóstolos. Disse que mais de quinhentos irmãos de uma só vez...

— Quinhentos? — interrompeu Helena

— É mulher, quinhentos. Só aí já dá para ver que não daria para corromper tanta gente para mentir, né? E por último Jesus apareceu ao próprio Paulo.

— Nossa... quinhentos irmãos...

— É, e Paulo disse que muitos ainda estão vivos. Ou seja, se alguém duvidar, é só ir a Jerusalém e perguntar. Ah, ia esquecendo. Paulo disse que até o Tiago também viu Jesus ressuscitado.

— Tiago, o irmão de Jesus?

— Sim, esse mesmo. Além de irmão de Jesus, Tiago é um dos mais respeitáveis judeu de Jerusalém. Tanto os romanos quanto as autoridades judaicas respeitam o Tiago.

Após uns poucos segundos de silêncio reflexivo, Trófemes prossegue:

— Paulo poderia parar por aí. Se apenas duas ou três testemunhas são válidas, imagina esse montão de gente aí. Mas, você conhece o Paulo...

— O quê?

— Ele veio com argumento lógico maravilhoso.

Dava para ver a empolgação de Trófemes saltar pelos seus poros.

— Vou tentar lembrar palavra por palavra. Paulo disse que a pregação do Evangelho está baseada na ressurreição de Cristo. Então como é que vamos negar a ressurreição dos mortos?

Helena balançou a cabeça, como que dizendo: continue.

— “E se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou” escreveu Paulo.

— Claro! — completou Helena — é ilógico eu dizer que cremos que Jesus ressuscitou corporalmente e ao mesmo tempo dizer que não existe ressurreição corporal. Uma proposição verdadeira não pode ser falsa e uma proposição falsa não pode ser verdadeira.

— Estás citando Aristóteles?

— Claro. Como pregar aos estoicos e epicureus se não conhecemos o que eles conhecem?

— Tens razão — divagou um pouco Trófemes, que logo se recompôs e continuou.

— Então, se Cristo não ressuscitou a nossa fé é vazia e a pregação que Paulo prega é inútil. Ou pior, uma enganação. Além de burrice. Porque se Paulo prega algo que ele sabe que é mentira, logo ele será desmascarado e tido por mentiroso.

— Sim, e se a base do Evangelho é que somos salvos porque Deus perdoa em Cristo nossos pecados, com base no sacrifício da morte na cruz e na ressurreição, então nossos pecados não foram perdoados se Cristo não ressuscitou — completou Helena.

— Você leu a carta? — brincou Trófemes — E tem mais... se Cristo não ressuscitou, escreveu Paulo, os que já morreram estão completamente perdidos. Isso porque se tudo se resume na vida que temos hoje, aqui e agora, somos os mais infelizes do mundo.

— Não entendi —pergunta Helena.

— Nós, cristãos, abrimos mão dos “prazeres” — disse em tom de ironia — deste mundo por causa de Cristo. E se tudo se resume a este mundo...

Não precisou completar. Helena demonstrou que entendeu com um longo ham.

Trófemes seguiu explicando que Paulo prossegue em seu argumento demonstrando que Jesus é o primeiro de milhares que ressuscitarão. Em Adão todos morreram. Em Cristo, aqueles que exerceram fé e arrependimento irão ressuscitar justamente pelo fato de ele mesmo, Jesus, ter sido o primeiro a ressuscitar.

Não vemos as pessoas ressuscitando a todo momento porque a ressurreição não é para este mundo. É para o mundo vindouro, quando ele voltar e executar seu juízo. Até lá, aqueles que partiram estão como que dormindo, aguardando a ordem para despertar.

Isso é assim para que milhares que ainda nascerão e virão a crer, sejam acrescentados ao Reino. Até lá, Jesus permanece exercendo seu poder e autoridade, sujeitando os principados e potestades, aguardando o momento de destruir definitivamente o pior dos inimigos: a morte.

— Uau! Agora ficou claro que de fato haverá a ressurreição, Trófemes. Mas, uma coisa me ocorre agora. Com que corpo iremos ressuscitar? Pergunte a Paulo na próxima carta.

— Minha cara. Tu achas que o Paulo não tem o Espírito Santo? Menina, parece que ele já sabia da tua pergunta. Ele já respondeu.

— Jura!

— Juro. Olha como ele disse: “Mas, alguém dirá: como é que os mortos ressuscitam? E com que corpo virão?”

— Meeeeeu Deeeeus. Esse Paulo é um profeta?

— Se é profeta eu não sei. Só sei que ele disse que do mesmo modo como a gente vê uma semente que ao ser plantada, morre e nasce um fruto absolutamente diferente da própria semente, podemos, por metáfora, comparar a nós. Ele disse várias comparações, mas a que ficou gravada na minha memória foi: “Semeia-se corpo natural, ressuscita-se corpo espiritual.

— Entendi. Quando houver a ressurreição, receberemos um corpo glorificado. Com Jesus também foi assim. Um corpo glorificado. Tanto é que mesmo alguns dos apóstolos não o reconheceram imediatamente.

— E digo mais, Helena, conforme Paulo disse, nosso corpo glorificado será imortal e incomparavelmente mais glorioso do que é agora.

— Glória a Deus! E quando será isso? — perguntou Helena.

— Claro que a data exata não sabemos. Mas o que Paulo termina falando é que alguns de nós estaremos vivos. Neste caso, nós passaremos por uma metamorfose. Primeiro, os que morreram serão ressuscitados e em seguida, nós seremos transformados.

— Agora que você diz isso acho que eu lembro que uma irmã lá de Tessalônica me falou. É... Paulo já falava disso há muito tempo atrás...

— Sim... e para finalizar, Paulo cita aquela doxologia: “tragada foi a morte pela vitória. Onde está ó morte, a sua vitória? Onde está ó morte o seu aguilhão”.

— Amém — disse Helena com um sorriso contemplativo e cheio de gratidão.






Baseado em 1Corítios 15
Imagem: bing.com/create

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